Preços dos alimentos recuam em fevereiro
Ana Carolina Saito e Anna Lúcia França
Grande vilão da inflação no ano passado, o preço dos alimentos começa a cair no varejo. Pela primeira vez desde maio de 2007, o grupo alimentação registrou queda de 0,38% em fevereiro pelo Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em linha, o custo da cesta básica recuou em 11 das 16 capitais pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos (Dieese). O custo mais alto ficou de fevereiro foi detectado em São Paulo, com R$ 226,20. Mas, mesmo assim, houve uma queda de 1,26% em relação ao mês anterior.
O recuo das cotações da cesta se deve, basicamente, à queda nos preços de dois produtos com forte peso na alimentação brasileira, o feijão e a carne. O aumento da oferta de ambos começa a aumentar gradualmente, pressionando os preços, segundo José Maurício Soares, economista técnico do Dieese. "Mesmo assim, um quilo de feijão ainda custa quase o mesmo que cinco quilos de arroz", acrescenta.
A deflação dos alimentos levou o IPC-S a encerrar fevereiro estável (0,0%), menor patamar desde a terceira semana de julho de 2006, quando registrou queda de 0,04%. A taxa referente a sete capitais brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife) ficou abaixo das estimativas do mercado, que projetava alta entre 0,04% e 0,15%.
A queda nos preços dos alimentos foi maior que a esperada pelos analistas. A Concórdia Corretora, por exemplo, projetava variação de 0,05% para o índice cheio e declínio de 0,30% no grupo alimentação. Entre os destaques estão, na ordem, frutas (-1,59% para -4,27%), hortaliças e legumes (-1,86% para -2,67%) e carnes bovinas (-1,08% para -1,69%), informou a FGV.
O economista-chefe da corretora, Elson Teles, diz que, no entanto, não há motivos para otimismo. "Não dá para esperar que essa seja a tendência. Os preços subiram muito e, agora, houve uma compensação", diz. Na sua avaliação, se alta das commodities agrícolas se mantiver, alimentação tende a pressionar a inflação. "Elas estão subindo e a demanda está muito aquecida", comenta.
Teles lembra ainda que o indicador medido pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) na capital paulista já apontava para deflação de 0,13% em alimentos na terceira quadrissemana de fevereiro. Mas, avalia, isso não deve se repetir no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que será divulgado na próxima semana. A expectativa da Concórdia é de uma taxa de 0,45% em fevereiro. "Alimentação virá uma variação menor, mas não apresentará deflação. Os produtos in natura tem peso menor no IPCA", justifica.
O mercado financeiro elevou a previsão para o IPCA, referência para as metas de inflação do governo, de 4,40% para 4,41% em 2008, segundo pesquisa realizada pelo Banco Central (BC) divulgada ontem. A expectativa em 2009 subiu de 4,22% para 4,30%. Já Soares, do Dieese, avalia que o início da colheita da safra 2007/2008 deve ajudar a derrubar ainda mais os preços, especialmente do feijão. "No último ano, as safrinhas de feijão foram seriamente afetadas pela seca, mas isso já está se regularizando", explica.
Baseado no novo valor da cesta em São Paulo, o Dieese estima que seria necessário R$ 1.900,31 (cinco vezes o mínimo de R$ 380,00), para cobrir os custos de um trabalhador e sua família com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência em fevereiro. No mês anterior este valor seria ligeiramente maior: R$ 1.924,59, ou seja, 5,06 vezes o valor do salário mínimo vigente.
Novo salário mínimo
O adiantamento do mínimo em um mês elevará a massa salarial do ano como um todo. Isso porque somando este mês a mais ao 13 salário provoca uma ampliação na média anual, diz Soares. "Mesmo assim, isso não recupera as perdas do salário ao longo do anos, desde 1940, quando foi criado", explica. O novo salário, de R$ 415, equivale, proporcionalmente, a 37% da cotação à época de sua criação na década de 40. Enquanto o PIB per capta subiu cerca de cinco vezes desde aqueles anos, o salário minguou. A nova cotação representa hoje cerca de um quinto do que deveria, se fossem guardadas as devidas proporções, de acordo com o economista do Dieese. "O efeito inflacionário dos anos 80 reduziu o poder de compra do mínimo, que bateu em 95 em seu patamar mais baixo, em torno de R$ 246,69".
(Gazeta Mercantil)
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