Varejistas regionais resistem às investidas dos gigantes

Regiane de Oliveira

O forte processo de consolidação no setor supermercadista fez com que as cinco maiores redes do País saíssem de uma participação de 34% do mercado, em 2002, para 41% no último ano, segundo dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Só as três gigantes, Carrefour, Pão de Açúcar e Wal-Mart, detêm 39% do setor. Apesar disso, o Brasil está longe de atingir o nível de concentração de países da Europa, como Inglaterra, em que as cinco maiores dominam 80% do mercado.

Segundo Sussumu Honda, presidente da Abras, ainda não é possível falar em concentração. "Em função das dimensões continentais do País, qualquer processo de consolidação é menor e mais lento", diz. E um fator determinante tem minado as estratégias das grandes redes rumo à criação de uma gigante nacional: o crescimento das redes regionais, a partir de R$ 500 milhões em faturamento.

"Há estados em que grandes redes entraram, como Pará", afirma Honda. "Outros como Mato Grosso, Maranhão, Piauí e Santa Catarina, elas ainda começam a operar". Tarefa que não é fácil uma vez que esses mercados são dominados por redes ágeis, resultado de uma eficiente administração familiar, com foco no atendimento ao cliente e sem dispersão de investimentos, isto é, definida a região de atuação, dificilmente essas empresas partem para outros mercados, exceto em caso de fusão com varejistas de mesmo porte.

O resultado dessas ações é um faturamento por m, na grande maioria das vezes, maior que o das gigantes, e muito acima da média do mercado, de cerca de R$ 12 mil. "Quanto maior a loja, menor o faturamento por m", explica Honda. Enquanto redes como a Zona Sul, no Rio de Janeiro, têm um faturamento de R$ 45 mil por m, Carrefour, Pão de Açúcar e Wal-Mart, alcançam, respectivamente, R$ 14,9 mil, R$ 14 mil e R$ 11,4 mil em vendas por m.

Há os casos excepcionais, como o do supermercado Rachel Loiola, no Amapá, com 15 caixas e faturamento de R$ 46,3 mil por m. "São casos de lojas únicas, com alto giro de produtos", diz Honda. Além do mais, a rede atua em um mercado com menor concorrência, afinal o estado tem apenas cinco lojas.

As regiões Norte e Nordeste ainda são as maiores fronteiras a serem transportas pelos gigantes do setor na tentativa de uma consolidação nacional. "As redes ainda estão começando a crescer no Centro-Oeste", conta Honda, exceto a norte-americana Wal-Mart que conseguiu alavancar seus negócios na região após a compra do Bompreço, que pertencia à holandesa Royal Ahold.

No Piauí, o Comercial Carvalho opera ainda sem concorrência, com suas 38 lojas e um faturamento de R$ 1 bilhão. O mesmo acontece no Pará, em que os supermercados Y.Yamada, fundado por japoneses em 1931, são líderes ab-solutos, com um faturamento de R$ 1,1 bilhão. Pão de Açúcar e o Bompreço já tiveram lojas na região, mas fecharam as operações.

Os mercados do Sul também guardam surpresas. A maior rede de supermercados de Santa Catarina, Angeloni, que registrou faturamento de R$ 1,2 bilhão em 2007, e trabalha com conceito de hipermercado compacto (supercenter), procura atender às necessidades da região. Enquanto o supercenter tem área de 4,3 mil m, um hipermercado possui 10 mil m.

Já em Porto Alegre, a tradicional rede Zaffari, que recentemente abriu uma unidade em São Paulo, durante muitos anos teve monopólio do setor de supermercados da região. Uma lei de 18 de janeiro de 2001, proíbe a construção, em Porto Alegre, de novas lojas de varejo de gêneros alimentícios (supermercados e hipermercados) com área superior a 2,5 mil m. E para entrar no mercado, as gigantes tem que se adaptar, com exceção do Carrefour, primeiro a implantar um hipermercado em Porto Alegre, em 1980, que mesmo assim preferiu concentrar seus esforços nas regiões metropolitanas da capital.

Em São Paulo, a briga também é boa. A rede Sonda, com um faturamento de R$ 832,2 milhões, e atuando no maior mercado mais competitivo do País, não dá sossego para as concorrentes. A empresa acaba de comprar a rede Cobal, com três lojas em São Paulo.

Se as empresas regionais dificultam o crescimento orgânico das gigantes do setor, por outro lado, são também as mais cobiçadas para futuras aquisições. Mas Honda alerta que "após a compra do Atacadão pelo Carrefour, os valores do mercado atingiram outros padrões". A rede pagou R$ 2,2 bilhões.

Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 1


Confira todas as notícias