Queda do preço da carne é menor do que esperado
Nice de Paula
O consumidor que esperava uma queda forte e generalizada no preço da carne bovina por causa do embargo imposto ao produto brasileiro pela União Européia desde o fim de janeiro pode estar se decepcionando com os valores cobrados nos caixas de açougues e supermercados. Apesar de a tendência ser de queda nos preços, o recuo está sendo muito mais lento do que o esperado. Varejistas, como as grandes redes de supermercados, afirmam que as negociações com os frigoríficos não apontam aumento da oferta ou queda significativa nos preços.
- O preço da carne está caindo, mas de forma não muito perceptível. Houve uma queda inicial por causa do noticiário sobre o embargo, mas ainda não percebemos nenhum aumento na oferta do produto - diz Manoel Pinheiro, gerente de compras da Rede de supermercados Mundial.
O gerente comercial da Rede Prezunic, Daniel Orlando David, reforça e diz que o preço da carne bovina hoje está até maior do que antes do embargo europeu.
" Hoje o preço do dianteiro do boi está até mais caro que no carnaval, que já foi o maior pico de preço da carne "
- Num primeiro momento, houve muito impacto do noticiário e o preço da carne baixou um pouco. Mas hoje o preço do dianteiro do boi está até mais caro que no carnaval, que já foi o maior pico de preço da carne. Isso é horrível, porque o cliente chega à loja com uma expectativa de que o preço da carne está baixando e isso não é real - diz David.
Segundo ele, já houve um movimento dos frigoríficos de colocarem no mercado a carne estocada, até porque a alta nos preços provocou queda no consumo. Mas essa tendência não se mantém agora.
- Estamos até vendendo alcatra mais barata do que há um mês atrás, mas porque o consumo estava caindo. Mas não há este efeito do embargo. Converso diariamente com sete ou oito frigoríficos e a informação que tenho é que os pecuaristas estão mantendo o boi no pasto para segurar preços - conta David.
" São duas informações em sentidos opostos, sinalizando uma queda-de-braço dos pecuaristas para segurar preços "
Os números da pesquisa de inflação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) também indicam um movimento dos pecuaristas para segurar o preço do boi. A segunda prévia do Índice Geral de Preços do Mercado (IPG-M), mostra que entre 20 de dezembro e 10 de janeiro, o preço da carne bovina caiu 3,32% no atacado e 0,75% para o consumidor final, no varejo. Já o preço dos bovinos (que inclui basicamente o boi gordo para abate) que havia caído 4,36% no mês anterior, registrou alta de 1,19%.
-São duas informações em sentidos opostos, sinalizando uma queda-de-braço dos pecuaristas para segurar preços. Com a carne já abatida não se pode fazer nada, mas o preço do boi gordo subindo numa época como essa indica uma resistência. A questão é quem vai agüentar mais e por quanto tempo vai durar a indefinição sobre o embargo - diz Salomão Quadros, coordenador de Análises Econômicas do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.
O economista lembra que em 2007, o preço da carne teve a maior alta dos últimos 10 anos, com variação de 20% a 22%, dependendo do corte, como resultado do aumento do consumo não só no exterior, como também no mercado doméstico, destino de 80% da produção brasileira.
Salomão Quadros acredita que, neste momento, a tendência ainda é de queda no varejo, até para repassar a queda detectada no atacado. O que tende a ocorrer, pondera Quadros, é que os percentuais de queda não sejam tão fortes e nem atinjam igualmente todos os cortes.
O gestor de categoria da Rede de Supermercados Zona Sul, Pietrangelo Leta, já identifica queda de preços neste momento, sobretudo nas carnes mais nobres, que são as mais afetadas pelo embargo europeu. Segundo ele houve um recuo de 20% antes do carnaval e , no momento, a rede está com preços promocionais para cortes como alcatra que baixou de R$ 9,99 para R$ 7,99 (-20%) e o filé mingon que passou de R$ 19,99 para R$ 16,99 (-15%), e chega a custar R$ 14,99 no caso do filé mingon congelado. Mas ele acredita que esse recuo nos preços não deve durar muito tempo.
- Os preços podem voltar a subir, porque os produtores acompanham a cotação da arroba do boi minuto a minuto. Como estamos numa época de excesso de chuva e pasto abundante, o produtor fica tranqüilo para deixar o boi no pasto enquanto o preço da arroba não vale a pena. Então os frigoríficos informam que estão abate - diz Leta.
(O Globo On Line)
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